Patrimonialismo, corporativismo, o falso imparcial e o banqueiro cordial
Em “Raízes do Brasil”, Sérgio Buarque de Holanda (1995) aborda o conceito de “homem cordial” como a marca distintiva do caráter brasileiro, definida pelo predomínio das relações privadas e afetivas sobre o espaço público. Essa cordialidade manifesta-se como uma aversão às formalidades e à impessoalidade das leis, o que dificulta a construção de uma democracia sólida e a distinção entre funcionário e patrimônio.
Sua obra situa essa característica na herança patriarcal e colonial da sociedade brasileira. Uma citação que representa esta ideia central é:
O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo.
Esta citação destaca a incompatibilidade fundamental entre os princípios que regem a família (afetividade, particularismo e laços de sangue) e os que deveriam reger o Estado (impessoalidade e leis universais). O autor utiliza essa distinção para explicar que a “cordialidade” brasileira não é sinônimo de polidez, mas sim da predominância do “coração” (afetos) sobre a razão e as normas públicas. O “homem cordial” é aquele que tenta reduzir o mundo público à lógica doméstica, tratando funcionários como parentes ou amigos e leis como favores.
Esta frase também fundamenta a análise do autor sobre o conflito entre Antígona e Creonte, na peça teatral do dramaturgo grego Sófocles. Antígona representa a “realidade concreta e tangível que é a família”, enquanto Creonte encarna a “noção abstrata e impessoal da Cidade”. Ao afirmar que o Estado não é uma extensão do lar, o autor mostra que a resistência de Antígona (e, metaforicamente, do caráter brasileiro) em aceitar a impessoalidade do Estado é a raiz da dificuldade de se estabelecer uma ordem democrática estável no país.
Chama a atenção a relação entre o conceito de “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda e os recentes escândalos envolvendo o Banco Master. Esta relação reside na persistente dificuldade em separar os interesses privados e familiares da esfera pública e impessoal do Estado. Holanda afirma que “o Estado não é uma ampliação do círculo familiar”, argumentando que os princípios da ética doméstica (afeto e particularismo) são opostos aos princípios do Estado (impessoalidade e leis universais). No caso do Banco Master, essa fronteira aparece borrada nas investigações sobre o ministro Dias Toffoli, que admitiu integrar oquadro societário da Maridt Participações, descrita por ele como uma “empresa familiar” dirigida por seus irmãos (CASO, 2026). O fato de uma empresa ligada à família de um magistrado da mais alta corte do país realizar negócios com fundos vinculados a um banco sob investigação judicial exemplifica a tese de que o “círculo familiar” muitas vezes tenta colonizar o espaço público.
O “homem cordial” age pelo “coração” em detrimento da norma abstrata. Essa característica manifesta-se no que Sérgio Buarque de Holanda chama de patrimonialismo, onde o agente público não distingue o patrimônio coletivo de suas relações pessoais. Nos escândalos do Master, as suspeitas de “compra de influência” e pagamentos associados ao nome do ministro sugerem uma tentativa de converter funções públicas em balcões de negócios privados (SENADOR, 2026). Além disso, a denúncia de que o “Centrão” teria pressionado um ministro do TCU para reverter a liquidação do banco reflete o uso de poder político para proteger grupos específicos, ignorando o bem comum (JHONATAN, 2026).
A reação do Supremo Tribunal Federal (STF) ao episódio também pode ser lida sob a ótica da “cordialidade”. Ao apoiar pessoalmente o colega e rejeitar a suspeição formal, optando por uma saída política (redistribuição do caso), o tribunal foi acusado por especialistas de manter um “pacto de autopreservação” e de reforçar a percepção de corporativismo (SAÍDA, 2026). Essa escolha sinaliza que a proteção dos membros do grupo (a “família” institucional) sobrepõe-se à prestação pública de contas e à transparência técnica.
Holanda utiliza a tragédia de Antígona para mostrar como a lealdade familiar resiste às leis da Cidade. Os escândalos de estelionato e fraudes no Banco Master, que teriam causado prejuízos de R$ 12 bilhões, demonstram como essa “ética do particularismo” pode levar à ruína do sistema público e financeiro. A resistência da família Vorcaro em obedecer a embargos ambientais e municipais para realizar festas em seus empreendimentos é um exemplo prático da aversão aos rituais e leis quando estes contrariam a vontade individual do homem cordial (BEACH, 2026).
O caso do Banco Master ilustra a atualidade da crítica de Sérgio Buarque de Holanda: enquanto a política e a justiça brasileiras forem tratadas como extensõesdo lar ou redes de favorecimento mútuo entre “amigos”, o Estado falhará em ser uma instituição verdadeiramente pública e impessoal.
Curiosamente, na Antígona, Sófocles (1990) apresenta um imbróglio muito menos maniqueísta e mais rebuscado do que Holanda faz parecer. Conquanto Antígona possa de fato representar a ética familiar e os laços de sangue, as atitudes de Creonte parecem mostrar que sua prática era sensivelmente distante do seu discurso de “impessoalidade da Cidade”. A intransigência do rei desliza com facilidade para arrogância, obsessão e paranoia. Ele mesmo chega a admitir a impossibilidade de imparcialidade e insuspeição, pelo fato de estar julgando membros de sua própria família. Já Antígona, embora confessadamente movida por afetos familiares, acaba por acidentalmente objetivar mais imparcialidade, ao defender um enterro digno aos dois irmãos mortos em batalha.
Não é oportuno recapitularmos toda a peça neste espaço. Convém apenas atentarmos para mais duas personagens da tragédia. A primeira é Hêmon, o filho de Creonte e noivo de Antígona. Ele é a voz da moderação e conciliação, que tenta persuadir o pai e trazê-lo à razão por meio do debate e do convencimento. Sua retórica fracassa ante o autoritarismo impávido de Creonte. O diálogo é impossível, e o fim de Hêmon há de ser inevitavelmente trágico como o de sua noiva.
Não nos esqueçamos, no entanto, de Tirésias, o velho adivinho cego. É apenas ele quem consegue finalmente convencer o obstinado rei a reconsiderar seu procedimento. Mesmo diante das ameaças e acusações infundadas, o ancião mantém-se direto e claro em seu dever, que consiste em: denunciar a gravidade da situação (“nossos altares todos e o fogo sagrado estão poluídos”), identificar a causa (“é por tua causa, por tuas decisões, que está enferma Tebas”), propor uma solução (“Não firas um cadáver! Matar de novo um morto é prova de coragem?”) e advertir sobre as prováveis consequências de se manter a atitude reprovável (“num tempo não muito distante se ouvirão gemidos de homens e mulheres de teu lar”).
Trata-se de um roteiro precioso! Para Creonte, por óbvio (e até por definição), era tragicamente tarde demais. Será para nós?
Referências
BEACH club embargado da família Vorcaro realiza evento no pré-Carnaval da Bahia. ICL Notícias. 12 fev. 2026. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/festa-beach-club-embargado-vorcaro/. Acesso em 16 fev. 2026.
CASO Master: Mendonça convoca reunião com delegados da PF para esta sexta-feira. ICL Notícias. 13 fev. 2026. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/caso-master-mendonca-convoca-reuniao/. Acesso em 16 fev. 2026.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
JHONATAN de Jesus, do TCU, limita acesso do BC em processo de liquidação do Banco Master. ICL Notícias. 12 fev. 2026. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/jhonatan-de-jesus-do-tcu-limita-acesso-do-bc/. Acesso em 16 fev. 2026.
SAÍDA de Toffoli de relatoria expõe crise inédita no STF e reforça histórico de blindagem. ICL Notícias. 14 fev. 2026. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/saida-de-toffoli-de-relatoria-expoe-crise-inedita-no-stf-e-reforca-historico-de-blindagem/. Acesso em 16 fev. 2026.
SENADOR fala em apuração de possível ‘crime de corrupção’ na relação entre Toffoli e Master. ICL Notícias. 12 fev. 2026. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/senador-entre-toffoli-e-banco-master/. Acesso em 16 fev. 2026.
SÓFOCLES. Antígona. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.













