Une Versos Paralelos

Ensaios de Ederson Peka e poemas de autores famosos

Acerto e Resistência no Pensamento Nagô

Vislumbres de uma avançada tecnologia sócio-cultural

A análise da civilização afro-brasileira na obra de Muniz Sodré (2000) qualifica com justiça a contribuição africana no Brasil como uma complexa e eficiente tecnologia sócio-cultural: trata-se de um sistema sutil e rebuscado de pensamento encapsulado numa “cultura litúrgica” resistente, muito além de uma mera manifestação folclórica ou religiosa. Este conceito nos municia para analisar concretamente a articulação dos interesses econômicos e ideológicos que pretendem negar seu reconhecimento, e detectar as formas pelas quais essa própria razão responde a tais obstáculos.

A “razão africana”, ou o “pensamento nagô” (que Sodré também designa pela noção de Arkhé), não se limita à crença religiosa, mas se configura como uma filosofia própria – com roupagem religiosa, sim, porém assentada em pensamento cosmológico e ético (SODRÉ, 2017). Ela representa tanto a “origem” como o “princípio material” das coisas. Este modo de pensar diferencia-se da razão ocidental, outorgando à corporalidade um estatuto complexo, vinculando o corpo ao sagrado, onde a experiência é mais somática do que puramente psíquica. No cerne dessa razão está o conceito de axé, que é a força de vida e de realização. A filosofia afro é marcada pela alacridade (alegria singular e concreta), que é um princípio ético comprovado na liturgia dos terreiros e que visa à expansão do axé e à continuidade física dos descendentes de africanos.

A comunidade litúrgica (o “egbé”, terreiro de candomblé) é a organização responsável pela recriação e preservação dessa forma social. Ela constitui um corpo grupal forte o suficiente para oferecer proteção contra as adversidades e o estrangeiro hostil, funcionando como um núcleo reelaborador e criador de símbolos para integrar uma forma de vida própria em uma outra História.

O reconhecimento dessa contribuição civilizatória é impedido pela articulação de interesses econômicos e ideológicos da sociedade brasileira, que buscam perpetuar o racismo e a negação da pluralidade de saberes (SODRÉ, 2023). Ideologicamente, essa negação se sustenta pela naturalização da supremacia branca nas instituições. Esse fenômeno pode ser nomeado “branquitude” (BENTO, 2022), cuja perpetuação se deve a um pacto de cumplicidade não verbalizado entre pessoas brancas para a manutenção de seus privilégios, lastreado por uma moralidade insincera e uma ambiguidade discursiva. O racismo manifesta-se no fenômeno comunicacional do duplo vínculo: “Eu gosto/aceito o sujeito da pele escura, mas ao mesmo tempo gosto/aceito que permaneça afastado”. Paradoxalmente, a ideologia da mestiçagem como aprimoramento racial é utilizada para favorecer essa fixação de posições e subverter a realidade, proclamando a “racial-democracia”: a mistura já constituiria a prova de que o racismo foi eliminado.

Quanto aos interesses econômicos, Joel Rufino dos Santos (1984) mostra que o racismo é intrinsecamente ligado ao capital. Esses interesses articulam-se ideologicamente para desvalorizar a contribuição africana. As forças de produção, altamente valorizadas pela etnia hegemônica no Estado, excluem os “povos da diversidade cultural”, e são justificadas por “doutrinas de elite” que figuram o negro como um “sujeito impossível de se integrar na relação valor-trabalho ou na disciplina do tempo racional e contínuo” (SODRÉ, 2002).

Frente à dominação econômica e ideológica, a resposta da razão africana é ativa e resistente. No egbé, o pensamento nagô permite a recriação e preservação de uma forma social que busca a restituição de uma soberania existencial para os descendentes de escravizados. O terreiro funciona como um “contralugar” (em face da ordem hegemônica) e como uma organização que garante existência e visibilidade ao suposto invisível e inexistente. Em vez de se limitar a um confronto direto e improdutivo contra o sistema explorador, a razão africana adota uma lógica de transação ou de “acerto”, que contorna as leis de subordinação impostas pelo grupo hegemônico. O recurso filosófico fundamental para isso é a analogia: pela conversão analógica, os negros fazem coincidir suas celebrações litúrgicas com festividades cristãs. A plasticidade desse modelo sincrético permite reordenar mitos e valores.

Visto que a autonomia produtiva foi barrada aos negros nas grandes cidades, a resistência se deu também na esfera do consumo. Naquilo que é inassimilável pela produção dominante, os negros estruturaram, com o impulso da força mítica, pequenos espaços de negociação social. O terreiro, como guardião do axé, acumula riqueza humana em vez de bens regulados pelo valor de troca, promovendo uma solidariedade para além das dimensões do individualismo burguês.

Ao invés de ficar confinada ao tradicionalismo ou à reserva de um passado, a experiência nagô cria uma outra comunidade de dados sensíveis, onde os modos de percepção e participação apontam para um tipo diferente de organização social. A filosofia de diáspora acentua o aqui e agora da existência, demonstrando uma autonomia grupal e uma memória continuada de valores coletivos, holísticos, que se contrapõem ao pensamento ocidental individualista. Por meio da comunidade litúrgica, a razão africana opera como uma força estruturante e um moderno dispositivo de identidade existencial que, ao invés de buscar a assimilação total ao paradigma colonizante, utiliza a comunicação transcultural e a lógica da transação para garantir a continuidade do grupo e a pluralidade dos saberes.


Referências

BENTO, Cida. O Pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

SANTOS, Joel Rufino dos. O que é racismo. São Paulo: Abril Cultural & Brasiliense, 1984.

SODRÉ, Muniz. Claros e escuros: identidade, povos e mídias no Brasil. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

SODRÉ, Muniz. O fascismo da cor: uma radiografia do racismo nacional. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023.

SODRÉ, Muniz. O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira. Salvador, BA: Prosa e poesia, 2002.

SODRÉ, Muniz. Pensar nagô. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.