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Brasil antes do Brasil

Cosmologias indígenas e a crítica ao capitaloceno

A história tradicional do Brasil usualmente é descrita como começando em 1500 EC, apagando milênios de ocupação prévia. Porém a cosmovisão indígena oferece não apenas uma narrativa alternativa, mas uma crítica radical ao “capitaloceno” – a era de destruição ambiental liderada pelo capitalismo eurocêntrico. Pretendemos explorar como a resistência indígena desvela a violência fundadora do Brasil e aponta para alternativas de futuros possíveis.

O trabalho de arqueólogos e o avanço da tecnologia, finalmente em colaboração com conhecimentos indígenas e quilombolas, têm revelado de maneira consistente preciosos vestígios dos povos originários sob a densa vegetação amazônica. Ao menos doze mil anos de manejo sustentável do meio ambiente constituem um patrimônio natural e arqueológico imprescindível e ainda mais valioso diante da ameaça das mudanças climáticas. É o que afirma o arqueólogo da Universidade Federal do Amazonas em Manaus Carlos Augusto Silva, pesquisador do projeto Amazônia Revelada (AMBROSIO, 2024). Este projeto identifica sítios arqueológicos em diferentes partes da Amazônia, aliando o estado-da-arte em pesquisas arqueológicas aos conhecimentos tradicionais dos povos da floresta.

O líder do projeto é o arqueólogo Eduardo Góes Neves, professor e diretor do Museu de Arqueologia da Universidade de São Paulo. Em seu livro “Por uma história antiga dos povos indígenas”, Eduardo (2022, p.182) denuncia o que ele chama de “princípio da incompletude”, que seria a ideia de que “[…] algo sempre faltou à Amazônia e seus povos: a agricultura, o Estado, a história, as cidades, a escrita, a ordem e o progresso”. As evidências de ocupação humana pretérita, com povos diferentes e formas variadas de organização social e política, têm desafiado muito fortemente essa visão outrora ortodoxa.

Uma presença humana tão antiga nesta região põe em xeque os próprios mecanismos de invisibilização dos quais nossa linguística é sintoma. O sentido de termos como “índios” e “América” passa a ser inevitavelmente questionado. O que teria esta terra a ver com Américo Vespúcio, o explorador italiano cujo nome batiza o continente? Que relação nossos povos originários teriam com as Índias, para onde supostamente o colonizador pretendia se dirigir? Como a um lugar tão intensa e ativamente povoado, modificado e mantido por milhares de anos, restava ainda ser“descoberto”? São apenas pequenas palavras, mas que trazem a reboque um peso histórico gigantesco de depreciação e violência.

Cabe ainda questionar repetidamente: o “tempo dos indígenas” é passado? Quem está aqui há mais tempo? Quem conhece mais intimamente este lugar? Quem invadiu o tempo e espaço de quem?

No livro “A queda do céu: palavras de um xamã yanomami”, Davi Kopenawa (2015, p.6) apresenta uma síntese poderosa de uma cosmologia que enxerga a floresta como um ser vivo, e a ganância branca como uma espécie de canibalismo.

A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor. A terra ressecada ficará vazia e silenciosa.

Kopenawa tem uma árdua missão de comunicar aos brancos a insensatez de sua predação nociva. Inclusive, seu desafio tem curiosamente os mesmos elementos básicos de um chamado profético nos moldes cristãos. O xamã tem um chamado.

Em sua mensagem, o contraste com o modo de produção e consumo desenfreado, ainda que nem sempre explícito, é inevitável. Em “Ideias para adiar o fim do mundo”, Ailton Krenak (2019, p.32) propõe uma substituição de consumismos. Se o capitaloceno é a “queda do céu”, as epistemologias indígenas são a semente para “adiar o fim do mundo”.

Suspender o céu é ampliar o nosso horizonte; não o horizonte prospectivo, mas um existencial. É enriquecer as nossas subjetividades, que é a matéria que este tempo que nós vivemos quer consumir. Se existe uma ânsia por consumir a natureza, existe também uma por consumir subjetividades — as nossas subjetividades. Então vamos vivê-las com a liberdade que formos capazes de inventar, não botar ela no mercado.

Urge reconhecer o Brasil indígena como condição incontornável para um futuro habitável. Temos muitas coisas a aprender, e talvez muitas mais adesaprender. A própria existência humana parece depender dramaticamente desta cooperação, desta confluência. O mestre quilombola Nego Bispo (2023, p.28) ensina: “No dia em que os quilombos perderem o medo das favelas, que as favelas confiarem nos quilombos e se juntarem às aldeias, todos em confluência, o asfalto vai derreter!”

Em seu trabalho arqueológico, Eduardo Neves (2022, p.190) também parece identificar a importância desta confluência para repensar a nossa sociabilidade.

Creio que essa seja uma das questões mais importantes que a arqueologia, não só na Amazônia, pode ajudar a entender. Por que, após dezenas de milhares de anos vivendo como caçadores-coletores, as sociedades humanas abriram mão de sua liberdade em prol da agricultura e do Estado? Os povos antigos da Amazônia central escaparam desse desígnio, desenvolvendo maneiras engenhosas de vida no bosque tropical. Essa é uma lição que vale a pena ser aprendida, nem que seja por seu valor ético.

Se tornam cada dia mais atuais as conhecidas palavras de Millôr Fernandes: “O Brasil tem um enorme passado pela frente.”


Referências

Amazônia Revelada. Amazônia Revelada. Disponível em: https://amazoniarevelada.com.br/. Acesso em 08 abr. 2025.

AMBROSIO, Nicoly. Como a arqueologia pode fortalecer os territórios indígenas na Amazônia. Amazônia Real. 24 out. 2024. Disponível em: https://amazoniareal.com.br/como-a-arqueologia-pode-fortalecer-os-territorios-indigenas-na-amazonia/. Acesso em 08 abr. 2025.

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

NEVES, Eduardo Góes. Sob os tempos do equinócio: oito mil anos de história na Amazônia central. São Paulo: Editora UBU; Editora da USP, 2022.

SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Editora UBU/PISEAGRAMA, 2023.