E os desafios para a produção cultural no Brasil
A reflexão sobre os desafios para a produção cultural no Brasil, trabalhada em direção a um projeto nacional de desenvolvimento, revela que os maiores obstáculos são a dependência estrutural e a alienação cultural que historicamente impediram a constituição de um projeto autêntico e autônomo. O desafio central é transformar uma cultura nascida como “alienígena” e “espúria” em uma criação genuína (RIBEIRO, 1972), capaz de articular a identidade nacional com a transformação socioeconômica.
O Brasil, em sua gênese como formação colonial escravista, foi organizado para prover o mercado europeu de produtos, atuando como um “proletariado externo das sociedades europeias”. A cultura brasileira, neste contexto, surgiu com um caráter acidental e ilegítimo.
O desafio crucial reside na composição da classe dominante brasileira, que, desde o início, foi uma “camada gerencial de interesses estrangeiros”, mais atenta às exigências externas do que às condições da população nacional. Essa elite buscou mimetizar a cultura da metrópole, utilizando as ideias liberais e modernas (como a liberdade de trabalho) como “simulacros dos modos de vida europeus”. Essa postura alienada tornava a classe dominante incapaz de ver e compreender a sociedade em que vivia e, consequentemente, inapta para propor um projeto nacional de desenvolvimento autônomo.
A produção cultural sob este prisma era marcada por uma assincronia e defasagem cultural. As ideias europeias, transplantadas para a realidade escravista baseada no favor, tornavam-se “ideias fora do lugar” (SCHWARZ, 2014). A cultura servia como adorno e marca de fidalguia, atestando a participação em uma esfera distinta, a da Europa. O pensamento de José Bonifácio, por exemplo, embora voltado à indagação das raízes do país e à sustentação de projetos de construção nacional – elegendo os livros como “farol” do futuro – era confrontado pela realidade de um país cuja cultura política se dividia entre a retórica e o pragmatismo (WEFFORT, 2006).
Um desafio recorrente é a busca por uma identidade que não seja mera cópia (“nem decalque”, para emprestar Mariátegui (2008)). O processo de autonomia nacional consistiu, muitas vezes, em transferir a dependência, adotando outras literaturas europeias, sobretudo a francesa, como modelo (CANDIDO, 1989).
A produção cultural brasileira, especialmente a partir do século XX, buscou ativamente superar essa dependência. Os modernistas (a partir de 1922) se debateram entre um passado que não passava e o novo que não chegava. A geração da Semana de 22 e, posteriormente, a de 1930 (com autores como Mário e Oswald de Andrade), promoveu uma revolução nas ideias que consistiu em aceitar a heterogeneidade cultural (elementos africanos, originários e europeus) como valiosa e fonte de originalidade e beleza (QUEIROZ, 1989). O modernismo, ao se enraizar nos anos 1930, gerou um movimento de unificação cultural, projetando na escala da Nação fatos que antes ocorriam no âmbito das regiões.
O Regionalismo Nordestino da década de 1930 constituiu um projeto cultural moderno (ARRUDA, 2011). Ao contrário do Romantismo anterior, esses autores usaram a literatura para mostrar conflitos sociais e contradições históricas com uma linguagem enxuta e realista, conectando-se à busca por uma identidade genuína e crítica. Essa geração deslocou o eixo da produção literária das capitais (São Paulo e Rio de Janeiro) para as margens culturais, ligando a arte à política (o “projeto ideológico”).
O Estado Novo de Getúlio Vargas utilizou a arquitetura modernista para simbolizar um esforço renovador voltado para o futuro. Os arquitetos modernos conquistaram o domínio do campo ao se associarem à ideia de um Brasil industrial. O projeto buscava construir uma identidade moderna que se distinguisse, aproveitando a “matéria bruta da modernidade” (CAVALCANTI, 2006).
Mas o projeto nacional de desenvolvimento cultural é minado especialmente pela debilidade material e de mercado, característica do subdesenvolvimento. O analfabetismo histórico limita o número de leitores reais, sendo um “traço básico do subdesenvolvimento no terreno cultural” (CANDIDO, 1989). Isso leva à impossibilidade de especialização dos escritores, que trabalham marginalmente. Ocinema brasileiro é um exemplo de como o subdesenvolvimento não é uma etapa, mas um estado. O mercado é ocupado de forma “praticamente exclusiva” pelos interesses estadunidenses, cujo comércio cinematográfico nacional atua como seu representante direto. A produção nacional fica marginalizada, dependendo de medidas “ocasionais e paternalistas” do poder público, que é, em grande medida, solidário com o “ocupante” estrangeiro.
A população, ao se urbanizar, tende a passar da cultura folclórica/oral diretamente para a cultura massificada (rádio, televisão, quadrinhos), que é inundada por material e know-how estrangeiro (e o estrangeirismo aqui é proposital). Essa difusão anormal orienta a opinião e a sensibilidade das populações desassistidas no sentido dos interesses políticos e econômicos dos países do norte global.
Em última análise, o desafio para a produção cultural no Brasil, sob a égide de um projeto nacional de desenvolvimento, é romper com a lógica do atraso e da alienação, que impede que a criação seja uma expressão autêntica e voltada para o futuro do povo (GOMES, 1996). É necessário que a cultura se liberte do jugo econômico e político do imperialismo e promova a modificação das estruturas internas que perpetuam o subdesenvolvimento, de modo que o que era imitação se torne assimilação recíproca e originalidade. O sucesso desse projeto exige que a identidade seja articulada em sincronicidade e simbiose com a transformação das estruturas econômicas, políticas e culturais. Só assim a cultura deixará de ser espelho de projetos alheios e se tornará força motriz de um desenvolvimento verdadeiramente nacional.
Referências
ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Modernismo e regionalismo no Brasil: Entre inovação e tradição. São Paulo: Tempo Social, USP, 2011.
CANDIDO, Antonio. A literatura e o subdesenvolvimento. In: A Educação Pela Noite & Outros Ensaios. São Paulo: Ática, 1989.
CAVALCANTI, Lauro. Moderno e brasileiro: a história de uma nova linguagem na arquitetura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.
GOMES, Paulo Emílio Sales. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. In: _. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
MARIÁTEGUI, José Carlos. 7 Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. São Paulo: Expressão Popular, 2008.
RIBEIRO, Darcy. Teoria do Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972.
SCHWARZ, Roberto. As ideias fora do lugar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Identidade cultural, identidade nacional no Brasil. São Paulo: Tempo Social, USP, 1989.
WEFFORT, Francisco C. Formação do Pensamento Político Brasileiro: Idéias e Personagens. São Paulo: Ática, 2006.













