Une Versos Paralelos

Ensaios de Ederson Peka e poemas de autores famosos

O Pobre de Direita

Raízes do pensamento social brasileiro em disputa

O Brasil é um país de contrastes, e um dos seus mais intrigantes paradoxos é a existência do chamado “pobre de direita” – pessoas de baixa renda que apoiam políticos e ideias que muitas vezes prejudicam seus próprios interesses (SOUZA, 2017). Para entender esse fenômeno, precisamos voltar às análises de pensadores clássicos como Sérgio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro e Roberto DaMatta, que se esforçaram para decifrar a sociedade brasileira.

Eles criaram ou aprofundaram conceitos importantes, como o “homem cordial” e o “patrimonialismo”, que ainda são muito utilizados para tentar explicar nosso país. Já Jessé Souza, um sociólogo mais recente, usa essas ideias para mostrar como a história da desigualdade no Brasil moldou e manipulou até mesmo as escolhas políticas dos mais pobres (SOUZA, 2015).

O “pobre de direita” é alguém que, apesar de sofrer com a falta de oportunidades, apoia discursos conservadores e até mesmo políticas que beneficiam os mais ricos (SOUZA, 2017). Jessé Souza explica que isso acontece por causa de uma herança histórica de humilhação e exclusão. Ele fala da “ralé estrutural”, um grupo formado principalmente por descendentes de escravizados que, mesmo após a abolição, ficaram à margem da sociedade, sem acesso a educação, empregos dignos ou respeito social (SOUZA, 2017).

Para se sentir valorizado, esse pobre muitas vezes adota valores da elite, como o conservadorismo religioso ou a ideia de que o sucesso depende apenas do esforço individual (a famosa “meritocracia”) (ALMEIDA, 2018). Além disso, a mídia e os políticos manipulam ativamente esse ressentimento, direcionando a indignação que deveria ser contra os ricos para outros grupos vulneráveis, como negros, indígenas e pobres que dependem de programas sociais. Assim, o “pobre de direita” acaba defendendo interesses que não são os seus. Para entender como chegamos a essa situação, é preciso conhecer as ideias de três pensadores fundamentais.

Sérgio Buarque de Holanda criou o conceito de “homem cordial”. Ao contrário do que parece, cordial aqui não significa “educado”, mas refere-se ao homem que age mais pelas emoções e relações pessoais do que pelas leis e instituições formais (HOLANDA, 1936). Isso explicaria, por exemplo, por que o “jeitinho” e o favoritismo são tão comuns na política. No entanto, Jessé Souza critica essa visão, na medidaem que ela acaba culpando a cultura popular pela corrupção, enquanto ignora que a elite sempre usou o Estado em benefício próprio (SOUZA, 2017).

Raimundo Faoro falou sobre o “patrimonialismo”, ou seja, a mistura entre o público e o privado. No Brasil, os poderosos tratam o Estado como se fosse sua propriedade, usando cargos e recursos públicos para enriquecer (FAORO, 1958). Isso gera corrupção e desigualdade. Faoro ajudou a entender por que é tão difícil mudar o sistema, mas Souza vai além: mostra que os pobres também são vítimas dessa estrutura, mesmo quando a defendem (SOUZA, 2017).

Roberto DaMatta complementou essas ideias ao estudar como hierarquias sociais antigas, como as do tempo da escravidão, ainda influenciam o Brasil. Para ele, o brasileiro vive entre o “individualismo” (querer ser melhor que os outros) e o “coletivismo” (precisar da ajuda dos outros) (DAMATTA, 1984). Essa ambiguidade ajuda a explicar por que o “pobre de direita” pode, ao mesmo tempo, odiar os políticos e admirar um líder autoritário que promete “acabar com a corrupção” (ALMEIDA, 2018).

O “pobre de direita” não é uma pessoa ingênua que vota contra si mesma, mas sim o resultado de séculos de exclusão e manipulação (SOUZA, 2017). Sérgio Buarque, Faoro e DaMatta de alguma maneira nos deram ferramentas para ajudar a entender a formação do Brasil (HOLANDA, 1936; FAORO, 1958; DAMATTA, 1984), mas Jessé Souza mostra que a desigualdade não é apenas econômica – é também política, cultural e psicológica (SOUZA, 2015). Enquanto a elite continuar usando o Estado em seu benefício e direcionando a raiva dos pobres para os próprios pobres, não vislumbramos como esse ciclo possa se romper.


Referências

ALMEIDA, Silvio Luiz de. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018.

DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1984.

FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 1958.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

SOUZA, Jessé. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado. São Paulo: LeYa, 2015.