Une Versos Paralelos

Flor da Pele

Levem-me o coração nos pulmões

Porque ainda há

Quem possa respirar -

Inspirar a vida

Aspirar aos dias...

Levem-me, que logo expiro

E nem respingo

De tão vazio.

Levem-me o coração

Nos rins, fígado, intestinos, pâncreas...

Onde quer que haja bem.

Levem-me o coração

Pois que logo, já sem ação,

jazerá também!

Levem-me,

Que logo já não presto

Senão aos vermes.

Depressa, levem-me!

Levem-me o coração que ainda pulsa,

Segurando a vida do que já se esvai.

Levem-me o coração que pulsa.

Que, se já não pulsa, já não serve mais!

E então façam-me

Coração nas córneas,

Para que vejam além do que vi,

Além do que vivi.

Façam-me coração

Nos ossos, meniscos, tendões...

Para que outros caminhem

Com seus próprios passos,

Desfacelando os laços

Que lhes tolhem ações.

Façam-me o coração sorrir.

Pois que já não bate!

Já não bate aqui!

Façam-me coração na pele

E entreguem-me

Onde o fogo ardeu.

Levem-me, sim, em pele,

Para quem sinta à flor

Mais do que fui capaz.

Levem-me,

Que o fogo que me arde

É só mesmo o das tardes

Em que não fui só paz.

Levem-me

Não por bondade

Ou mórbido prazer.

Levem-me porque é preciso

Que a vida prossiga

Com o que que há de vida,

O que há de viver!